
Naquele dia toquei no que mais tinha desejado até então .
Naquele dia não me importava de morrer porque morreria feliz.
Naquele dia tudo se tornou especial , para em fragmentos de tempo depois se tornar trivial .
Embati no chão gelado, quebrei por completo. E ,nem quando me pegaste ao colo,senti protecção. Ouviu-se um estrondo ,como se tivesse desabado o mundo e não um simples corpo que se desequilibra momentaneamente.
Tão poderoso som não se deveu ao simples facto do tombo , pois juntamente comigo , todos os meus almejos e desejos caíram também .
Não me magoei fisicamente , mas psicologicamente terei sempre as mazelas deste acidente . Sim ! Acidente , foi o maior e pior acidente de todos , e eu podia tê-lo evitado . Mas não evitei , assim como não consigo evitar as dores agonizantes que se alteram como as estações do ano . A única semelhança com estas é o seu poder volátil , porque as cores e os aromas puros só pertencem às mudanças tipicamente temporais.
Naquele dia , foi o dia ... O dia em que percebi que o encanto não existe , pelo menos em ti .
Naquele dia vi e percebi que o encanto permanece no resto do mundo , fora do que tu és.
Naquele dia quebrei , mas ganhei algo em troca : a percepção de que o maior encanto vem dos sorrisos dos estranhos que passam nas ruas , das travessuras das crianças , do chilrear das aves . Sim! Tudo isso é que transmite fascínio .
A criança é plena , é sincera , traz a verdade bem na palma da mão e, mesmo assim, nunca abdica da mesma. Os estranhos sorriem mais do que aqueles que às vezes nos são próximos demais . As aves voam livremente à procura da essência da sua vida . Enquanto que os adultos, no geral , em busca da essência só se deparam com a inveja e com a desilusão.
Não sou criança, mas gostava de voltar a sê-lo, e por isso mantenho a palma da minha mão bem fechada .
Naquele dia..caí o mais fundo que poderia ter caído. Mas , paralelamente , levantaram-se outras concepções que alteraram a visão transcendente que fazia de mim e dos outros.
Naquele dia ....Ai! Naquele dia !
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