
Ainda matracam as recordações daquele dia , como monstros insaciáveis pelo terror na vida alheia.
Não sei por que razão , finalmente , aconteceu . Surgem questões entorpecidas , verdades silenciadas pelos gotejos de dor despoletada.
Os momentos vão-se misturando , numa película , como se duma fotografia muito antiga se tratasse. Já não consigo distinguir os traços dos corpos , os sorrisos brilhantes , ouvir com nitidez as palavras proferidas. Uma neblina tenebrosa , indefinida que se arrasta pelo tempo e me faz companhia.
A única lembrança que ainda acalento é bastante remota , mas consegue apunhalar-me com a mesma intensidade , sem que por ela passem as horas em que fico acordada .
As questões não me deixam descansar durante a noite , nem deixam fluir a minha concentração diurna , estou incessantemente a lutar por esquecer : o teu rosto , o teu toque , a tua incerteza . Mas , só consigo entrar ainda mais no dúbio linear do passado.
Revolta pujante, um grito ensurdecedor que interiorizei , e que quero libertar . Preciso ser livre do que ainda não me libertou , contudo tenho a máxima certeza de que vou levar um certo tempo até perceber que continuar a viver do ' ontem' não me deixa aproveitar a beleza do 'hoje' e a incerteza prometedora do 'amanhã'.
Portanto , quero que o hoje e o amanhã sejam o meu trilho que me puxa para o incerto que virá, que me façam galopar o coração dentro do peito e que o ontem seja o fim da minha conjectura do passado guardado . A minha morte terminou ontem , a minha vida começa neste instante .
Estou viva , gritarei !
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